Puta que pariu, é um robô. Um maldito robô.
Eu não estou na frente de um ser humano, é impossível.
Deseja alguma coisa, senhor? Posso ajudá-lo senhor?
Ai, sério, olha pra ti, criatura, ajude a si mesma.
O número nove? São sete e noventa o médio e nove e cinquenta o grande.
Não sei, já perdi a fome. Pára de me olhar assim. Pára de sorrir desse jeito.
Eles te pagam tão bem assim pra sorrir desse jeito o tempo todo? Meu deus, tira o braço de trás das costas, move-te como um ser normal. Não me trate como outro robô, pergunte-me as coisas sem usar as mesmas palavras toda vez.
Mais alguma coisa senhor?
Sim, sim, sim. Tira esse uniforme e vista-te como bem quiser, fala com as tuas gírias e os com os teus costumes, disponha-se conforme teu humor, mostra-te como alguém vivo, pelo amor de deus. Que merda, esse teu crachá com prêmios de boa funcionária a mostra não te levará a lugar nenhum, juro. Teu supervisor só o é porque conseguiu ser menos humana que você, tu só sobes a medida em que desces, tu só sobe a medida em que te chupam a alma fora, tu só sobes enquanto não és gente. E tem mais, eu sou gente ainda, eu sou um ser humano, eu não quero ouvir outro ser humano repetindo frases como uma máquina, eu não quero ter com alguém que não se parece com alguém, enojas-me isto, tiras-me o apetite. Não quero mais comer neste lugar em que tudo funciona sempre da mesma maneira, não quero mais dividir o recinto com meio-seres.
Pode aguardar um instantinho que já levamos para o senhor.
Eu aguardo, eu sento aqui e espero como todo mundo. Quem é teu chefe, guria? Será que todos aqui são tão máquinas como tu? Meu deus, já voltaste a teu prévio estado, coluna ereta, cabeça erguida, esperando outro robô faminto pedir outra comida robótica e mecanizada. Não tem ninguém aí, guria, aproveita e lê um jornal, entende o que acontece pelo mundo, pelo menos os quadrinhos, então, dá risada de alguma coisa, sente alguma coisa. Meu deus, não pode ser proibido sentir. Em que lugar estou em que é proibido sentir? Somos seres, oras! Meu deus, não consigo mais pensar em comer mais nada aqui, robôs cozinhando para outros robôs.
Uma coca e um número sete, por favor.
Mais alguma coisa, senhor?
São oito e trinta, senhor.
Pode aguardar um instantinho que já levamos para o senhor.
O senhor senta e espera seu banquete enquanto eu admiro os robôs interagindo. Um robô servindo a outro robô. Uma coca-cola e um número sete.
O que será que é o número sete? Meu deus, não sei o que é o número sete, mas deve estar lá dentro da cozinha higienizada e dentro dos padrões sanitários dentro de diferentes sacos plásticos todos com a mesma quantidade de ingredientes, todos esperando para serem misturados no número sete, todos os plásticos esperando para serem jogados ao lixo com os plásticos dos ingredientes dos números um ao doze ou sei lá quantos números, e todos os robôs esperando pra comerem seus números do mesmo jeito que comeram ontem e antes de ontem e semana passada e ano passado, com a mesma coca-cola que tomaram ontem e antes de ontem e semana passada e ano passado. E os números e as cocas-colas não são mais apreciadas, não são mais comida, são costumes, são costumes dos robôs, servirem números e cocas, comerem números e cocas. Tudo do jeito que os robôs já sabem como será, com o gosto que já sabem qual vai ser, com o preço que já sabem que vão pagar. Porque esses robôs podem viajar o mundo, mas outros robôs estarão lá para oferecerem os mesmos números e as mesmas coca-colas para que o robô que viaja não precise mudar sua culinária. Progresso, comodidade. Para isso que trabalhamos. Trabalhamos para ter progresso e comodidade. Depois de um dia de trabalho quero progresso e comodidade em troca. Quero o mesmo número e a mesma coca, quero essa rotina até que ela se esgote por completo. Trabalho, progresso, comodidade, número sete, coca-cola, oito e trinta.
Aqui está seu lanche, senhor.
Bandeja de plástico, papel, guardanapo, pão, alface, tomate, restos de vaca, queijo, restos de porco. Não estou mais com fome, não sou um robô.
Me vê uma coca, por favor.
Meu deus, eu pedi uma coca, eu sou um robô. A quanto tempo eu não faço um suco? A quanto tempo eu não tomo alguma coisa sem conservantes e sem ter passado pela mão de robôs? Quero correr até achar um pé de laranja, ou limão, ou qualquer coisa, e quero chupar a alma da natureza viva pro meu corpo quase sem alma, quase robô. Mas meu deus do céu, não tem pés de laranja dentro desse shopping, tem sapatos, tem esmaltes, tem vestidos, tem robôs usando sapatos e esmaltes e vestidos do próprio shopping dentro do shopping, tem coca-colas e outros lanches do número um ao dezessete, e tem celulares e computadores e elevadores e escadas rolantes que fazem as pessoas terem menos trabalho e chegarem mais rapidamente aos sapatos e vestidos e esmaltes e aos celulares e a outros elevadores e outras escadas rolantes. E as pessoas dão voltas e circulam nisto sem passarem por um pé de laranja ou nada que não seja comum, nada que já não tenha sido visto.
Aqui está a coca, senhor.
Merda, enquanto eu tomo essa coca e o número nove esfria na minha bandeja tem gente passando fome no mundo inteiro. Eu quero dar minha comida pra alguém que tá passando fome, mas não tem ninguém passando fome ao meu redor, aqui todo mundo come e ninguém pensa que existe alguém passando fome no mundo. Quero passar fome até encontrar um pé de laranja. Quero passar fome e ver alguém matar a fome com meu número nove. Quero passar fome e ver todos esses robôs passando fome. Quero deixar de ser um robô.
Obrigado, agradecemos a preferência, volte sempre, disse o robô.
Tenho vontade de rasgar-lhe a pele e mostrar-lhe as tripas que transformam os números em merda. Tenho vontade de mostrar a todos aqui o que realmente está acontecendo aqui nesta lanchonete.
Jogo a lata de coca no lixo reciclável, faço a minha parte.
Sorrio para o robô que deve estar contente por completar mais um ciclo mecânico de fome, progresso, comodidade, número nove, coca cola, sete e cinquenta, salário-mínimo mais bônus ao fim do mês.
Meu deus, eu penso, quanto vale a repetição infinita de momentos na vida que nunca mais voltarão e quanto vale a alma de um ser humano para que ele transforme-se numa máquina de repetição de momentos, de ciclos e de frases? Quando é que essa moça é gente? O que vão fazer com meu número nove inteiro em cima da mesa?
Mais alguma coisa senhor? São cinco e quarenta.
Meus deus, sejamos todos gente ao mesmo tempo, só pra ver a merda que dá. Tenhamos sentimentos, sejamos vivos. Eu cansei de ser vivo por todos vocês, alguém mais tem de dividir o peso da vida comigo, eu não consigo mais agüentar. Enquanto só eu for vivo e só encontrar robôs, minhas costas só arquearão cada vez mais, enquanto vocês seguem eretos e caminham com passo firme e mecânico.
PLEM, PLEM, PLEM, PLEM.
Quero jogar o peso da vida em todos vocês, quero devolver a alma inútil de todos vocês, que só me faz carga e sofrimento, quero que sejamos todos vivos e dividamos o preço de o sermos em mais do que sete e quarenta ou nove e setenta. Quero poder vê-los e olhar em vossos olhos sem sentir um arrepio do fundo d'alma de quem vê um semelhante que está morto estando vivo. Quero poder sentí-los, cada um como o é, quero...
Puta merda, preciso sair desse monte de gente. Cada ser que me passa, despeja um pouco mais de sentir na carroça da minha alma, e eu sigo como um amuleto, um furta-sentimentos, que é necessário para que todos continuem em seu caminho de progresso, comodidade, números sete e nove, coca-colas, e toda essa porra que vemos quando olhamos e reparamos ao redor. Um furta-seres que carrega na alma as almas que os robôs já não sabem mais vestir e anda por aí com as costas arqueadas pelo peso de mil homens e ao cuidar de todos acaba não sendo nenhum.
Preciso sair daqui.
Preciso alcançar meu carro.
Preciso sair daqui.
Preciso alcançar meu carro, sair daqui, deitar na minha cama e descansar.
Preciso descarregar a vida. Amanhã é dia de trabalho.
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